Eu não acreditava no que via na televisão. Para quem não sabe, vou colar a matéria veiculada no site do A Tarde:
STF confirma fim de exigência de diploma de jornalista
Por oito votos a um, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou hoje a exigência de diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista. Apenas o ministro Marco Aurélio votou a favor da exigência do diploma. O relator e presidente da Corte, ministro Gilmar Mendes, alegou, em seu voto, que a profissão de jornalismo tem vinculação com o amplo exercício da liberdade de expressão e de informação.
Segundo Mendes, exigir o diploma é contra a Constituição Federal, que garante a liberdade de expressão e de informação. Ele chegou a comparar a profissão de jornalismo com a de chefe de cozinha para provar que não é necessário fazer faculdade específica para atuar em determinadas áreas.
Nó na garganta. Este é o meu sentimento neste exato momento. Pra quê serviu quatro, quase cinco, anos numa faculdade pública, horas de estudo, muito tempo em cima de leis, formas, formatos, maneiras de escrever matérias e artigos, como procurar e entregar para a sociedade tudo o que ela quer saber? Muitos acham que jornalistas se sentem semi-deuses, por seguir uma máxima no meio: “quem detém informação, detém poder”, assim como médicos, advogados e outras profissões que mexem com a sociedade de alguma forma, como em todo lugar, existem bons e maus profissionais. O jornalismo precisa de pessoas gabaritadas para exercer a função, sim.
Hoje, tento, com muito suor e paciência, manter uma revista cultural em minha cidade. Se antes, até ontem, minha luta era difícil, hoje, ela se tornou um caos. Existem pessoas que não se formaram em jornalismo, que são ótimos profissionais, porém, o mercado sempre nivela tudo por baixo. Sempre contratam alunos de comunicação, ainda muito inexperientes (não entendam com uma crítica, afinal é importantíssimo passar por estagiário, mas alguns meios de comunicação despeja um aluno numa redação e dá a ele funções complicadas e que requer, como dizem, sangue no olho), ou mesmo um primo que um dia escreveu uma boa redação na escola. E deixa pessoas preparadas de fora do mercado simplesmente por uma simples razão: dinheiro. Pessoas sem formação são mais baratas de manter.
Hoje, não sei mais o que sou. Jornalista? Como Clark Kent, que se desse alguma merda ele usava a super força? Não... sou Fabyano Gomes, uma pessoa que estudou numa faculdade estadual, buscou a melhor forma de ser um bom profissional. Muito esforço... para nada. Olhei meu diploma e não sei mais o que representa este papel. Antes me orgulhava e dizia que iria colocar na parede, hoje nem dá para colocar em cima do jornal que o cachorro faz xixi, é um papel muito grosso e não absorve muito bem líquido.
Antes de passar a matéria na TV eu já estava inquieto, depois que vi fiquei sem ação. Até o Carlos Ayres Britto, que eu mantinha até então, uma admiração pelo que ele fez pelo Tribunal Superior Eleitoral – TSE, mudando muitas coisas antiquadas nas eleições, se esvaiu da forma mais rápida possível.
No ‘day after’, o que representa um jornalista? Nada. Apenas mais uma pessoa que escrevia boas palavras na escola.
Lamento se não consegui concluir idéias, não consigo escrever tão bem com uma mente turva, sem saber o que meu oficio (não me imagino fazendo outra coisa, fora da comunicação) representa para a sociedade.
Hoje sou um jornalista em luto. Visto preto não sei até que dia.
Categoria(s): Serviço Interno
14 comentário(s):
- At 18 de junho de 2009 às 05:14 Gustavo said...
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Nunca poderia imaginar que um dia ligaria meu computador e veria esta página tão "silenciosa". Geralmente ela provoca, no mínimo, um sorriso. Mas hoje nós tivemos esta triste notícia. Jogou-se fora toda uma história de luta e esforço em prol da boa qualidade e confiabilidade da informação. É lógico que precisamos filtrar aquilo que lemos ou ouvimos, mas a confiabilidade e qualidade pesam muito nessa hora. Não digo que uma pessoa que saiba escrever bem e seja um comunicador por excelência não possa ter o seu espaço. Contudo, tirar o reconhecimento daqueles que se esforçam para ser profissionais competentes e zelam pelos valores adquiridos no curso que abraçaram como carreira? Isso não teve graça. Ficam aqui meus sinceros sentimentos de indignação com essa medida descabida.
Gustavo Luiz, leitor assíduo do azidéias. - At 18 de junho de 2009 às 08:19 Anônimo said...
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Olha, você tem de pensar no lado positivo, agora quando você for fazer uma entrevista de emprego vai ter àquele monte de gente, mas o dono do local provavelmente ira olhar mais pra você, agora você tem um destaque em relação ao outros concorrentes, para as "Chefes" essa lei vai demorar chegar eles sempre irão preferir contratar pessoa como você, formadas.
- At 18 de junho de 2009 às 10:49 P.A. said...
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Grande Tijolo,
É com pesar que compartilho esse sentimento contigo. Como lhe falei, o gosto de fel permanece em minha boa [e olha que nem tinha visto a comparação com o cozinheiro ainda!].
É lastimável, e digo tanto como jornalista [sejá lá o significado disso agora], como cidadão, consumidor da notícias, que a comunicação seja assim tão menosprezada. Não sei o que esperar do futuro, mas sei que qualquer um que saiba escrever 'bunitinho' e tenha um 'chegado' bem colocado nas empresas de comunicação vão se dizer jornalistas a partir de agora.
Acho que já nem sei mais o que digo. A mente está turva, os pensamentos bagunçados, num estado de letargia, de incredulidade 'semseimaisoque'...
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... - At 18 de junho de 2009 às 12:02 Shirley de Queiroz said...
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Se eu estudar as leis, o código penal e tal, na minha casa, posso ser advogada??
E dizem que os cursos superiores de jornalismo não vão acabar. Quem vai fazê-los? Os filhos dos ministros??
O chefe da empresa pode escolher uma pessoa diplomada em vez de um cara com ensino médio. Mas porque ele faria isso?? Quem está preocupado com qualidade?? Os ministros??
Ninguém NUNCA disse que quem não tem diploma não pode expressar-se. Porque há uma coisa chamada colaborador. Uma crônica, um artigo tem espaço no jornal e pode muito bem ser escrito por outro profissional. Mas a matéria, a reportagem exige uma técnica que tem por suporte toda uma teoria...
Ninguém precisa de diploma para expor sua opinião. Mas, o trablaho do jornalista é justamente o CONTRÁRIO. Expor a NOTÍCIA em detrimento da sua opinião.
E uma pergunta. Não há mais esperança?? - At 18 de junho de 2009 às 14:58 Tijolo said...
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Gustavo, valeu pela compreensão. Eu também estranhei não ter nenhuma gracinha num texto tão grande. Mas o baque foi muito grande. E concordo com cada palavra sua.
É, Marcelo, o mercado agora que vai ditar as regras.Vamos ver no que vai dar.
PA e Shilinha, meus colegas de profissão, pra fazer a alegria de Gilmar Mendes, vamos abrir um restaurante. - At 18 de junho de 2009 às 15:38 Shirley de Queiroz said...
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Tijas,
Vou seguir sua sugestão. Quer ser meu sócio?
http://shirleydequeiroz.blogspot.com/2009/06/blog-post.html - At 18 de junho de 2009 às 15:51 Karvalhovsky said...
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Sabe, Shirley, que meu primeiro pensamento foi o mesmo que o seu: qualquer um pode também estudar as leis e atuar como advogado. Quem sabe até virar um ministro do STF! Será que eles são a favor disto também?
Esse precedente é muito perigoso. De maneira nenhuma questionando a qualidade de quem exerce a função mesmo sem a formação, mas qual seria, então a finalidade de um curso superior? Pra que desperdiçar anos sendo que não há mais necessidade?
E lendo mais a respeito da decisão, teve outro aspecto bizarro no argumento do tal relator. Ele disse que em profissões que não exercem risco à sociedade, diferente de medicina, engenharia, etc, isso era válido. Quer dizer que o jornalismo é inofensivo? E por que ele próprio vive reclamando da imprensa, que pega no pé dele?
Mas acho que isso é apenas uma das várias etapas da banalização da educação no país. Já não era preciso passar nas matérias pra passar de ano no colégio, agora não é preciso formação pra atuar profissionalmente. Também, com o presidente defendendo orgulhosamente que não precisou estudar pra ocupar o cargo, só podia dar nisso. E nem é uma crítica política pessoal, é apenas uma postura que nunca me agradei que ele defendesse. - At 19 de junho de 2009 às 13:37 Anônimo said...
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Realmente é de uma imbecilidade sem tamanho esta lei, ou melhor, a ausência dela.
A profissão de "comunicólogo" neste país esta beirando a marginalidade.
Sei porque também sou um. E mesmo eu tendo DRT, não sou nada.
Eu engoli seco também quando vi a matéria no JN. Me senti um marginal sujo, humilhado, pisado.
Me senti pior que quando levava "não" dos veículos de comunicação.
Formação acadêmica pra quê?
Depois desta eu retomo um pensamento antigo: Será que perdi meu tempo fazendo comunicação num país que não valoriza a mesma? Que recém saiu de uma ditadura?
Tenho nojo deste sistema.
TT JOe - At 19 de junho de 2009 às 15:19 Rodrigo said...
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Respondendo a Karvalhovsky, afirmo que também acho um absurdo a decisão.
Dentro da legalidade e da razoabilidade, todas as profissões devem ser respeitadas, especialmente as de grande destaque; ao contrário do pensamento do Excelentíssimo Ministro que deveria sair mais à rua, não creio que Jornalistas sejam equivalentes a cozinheiros, menos importantes que Médicos, Advogados, Engenheiros etc. e que a falta de qualificação não tenha potencial lesivo.
Os Jornalistas têm imenso poder, informativo e principamente persuasivo (o que demanda ainda maior cautela no que tange à regulamentação da profissão). Podem auxiliar a eleger "representantes" do povo, informar, pressionar e temo ver pessoas destituídas de conceitos éticos (ao menos dos conceitos ensinados na Faculdade), de princípios da profissão e mesmo sem conhecimento da legislação pertinente (como lembrou Tijolo) "exercendo" uma profissão tão importante.
Já atuei em vários processos de indenização com base na lei de imprensa. E os resultados favoráveis aos clientes sempre decorreram de erros grosseiros na informação, de excessos e da prevalência do desejo de "vender" a notícia em detrimento da dignidade e da honra dos indivíduos, fomentados por maus profissionais (a minoria que sempre envergonha qualquer profissão) ou por pseudo jornalistas.
Em todos esses casos, era realmente complicado ver um profissional com uma formação porca ou alguém que se achava comunicador, no lugar que bem seria ocupado por um ótimo jornalista. Complicado ainda tentar explicar a esses indivíduos que o direito à informação há de conviver de forma harmônica com a honra e intimidade das pessoas, um direito não sendo absoluto em relação ao outro, reciprocamente.
Por isso, a discussão haveria de ser focada, sim, sempre na melhor qualificação e no respeito aos profissionais. Sempre louváveis, assim, atitudes como o Exame de Ordem da OAB e o exame que vem sendo pensado pelo Conselho Federal de Medicina, a fim de coibir os erros crassos atualmente em evidência.
Mas talvez ainda haja uma saída para os bons profissionais do jornalismo. O Deputado Miro Teixeira, atento às lacunas apontadas pelo Supremo em relação à legislação pertinente, já propõe a regulamentação legal da profissão de Jornalista (http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/06/18/miro-teixeira-deve-propor-projeto-para-regulamentar-profissao-de-jornalista-756409379.asp).
Esperemos para ver, mas correndo atrás, com manifestações contundentes, como a de Tijolo.
Abraços aos Azideotas. - At 19 de junho de 2009 às 17:51 Tijolo said...
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E sempre tem mais de onde sai essas coisas.
Gilmar Mendes afirmou à revista "Isto É" que "essa tese de a Justiça 'ouvir as ruas' serve para encobrir déficits intelectuais. Eu posso assim justificar-me facilmente, não preciso saber a doutrina jurídica. Posso consultar o taxista".
Ele é o rei das frases-navalha. - At 21 de junho de 2009 às 01:53 Marivaldo said...
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Eu sou de acordo que Comunicação e Jornalismo bastaria ter nível técnico e assim abriria mais a concorrência e abrangeria mais pessoas para essas funções nos diversos meios de comunicação.
Eu entendi que a comparação da função jornalista com cozinheiro é simplesmente o TALENTO que ambos adquiriem com suas experiências (notem que jornalistas que comentaram aqui, não perceberam iso).Quem quiser enriquecer mais seu curriculo, que façam cursos superiores, linguas estrangeiras e de outras matérias específicas. - At 21 de junho de 2009 às 20:00 Kyra said...
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POis é meu caro.
Estou no 6º período de jornalismo e faço, das suas palavras, as minhas. - At 21 de junho de 2009 às 21:33 Rodrigo said...
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Marivaldo,
Talvez não no seu entendimento, mas, a meu ver, a comparação empobrece a profissão pelo simples motivo de um cozinheiro, por mais qualificado que seja e ótimo profissional, prescindir do conhecimento da legislação, da ética profissional, bem como da metodologia de trabalho. Isso não evita a ocorrência de erros, mesmo porque somos todos humanos, mas certamente evita a ocorrência de erros crassos.
Não bastasse, o curso de Jornalismo capacita o profissional levando ao seu conhecimento os diversos meios de mídia (laboratórios, estágios etc.).
E espero não ser o seu caso, mas, atualmente, boa parte das pessoas quer buscar o caminho mais fácil, buscar atalhos, desrespeitando quem sentou nos bancos acadêmicos por vários anos e dedicou-se. Pessoas que desrespeitam a profissão e submetem-se a um salário que um Jornalista não poderia aceitar.
Um pensamento que em muito se aproxima do propagado por aqueles que julgam inconstitucional o exame da OAB.
A competência é resultado do esforço, dedicação, bem como de tudo isso decorre o sucesso profissional. - At 23 de junho de 2009 às 07:47 sarahbio said...
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O diploma não é só um pedaço de papel... é resultado de anos de esforço, comprometimento, formação e capacitação...
Como qualquer um pode exercer uma profissão onde existe ensino superior?
Fiquei louca qdo ouvi isso, apesar de não ser jornalista, nem perto disso, nem acreditei qdo vi a notícia na MTV...
Olha, nada é definitivo, acho que os jornalistas deveriam se unir e protestar.
Fora isso, não sei o q dizer, curta seu luto, ele é mais que merecido.
Uma falta de consideração aos profissionais!


